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27/12/2013

Trintanos

Inspirada pelo texto do Bia, resolvi escrever um também, em homenagem aos meus trinta anos.

Com cinco, lia turma da Mônica. Aprendi a ler.
Detestava ir pra escola, pra quê?

Com dez, lia Fernando Sabino que meu irmão me emprestou.
Já era tia, sabia trocar fralda e amava um serzinho de andar bêbado e cachinhos e bochechas gostosas.
Gostava de brincar de escolinha, passar dever no quadro, apagar.
Foi o presente que mais gostei na minha infância: um quadro-negro e uma caixinha com giz e apagador, dados sem motivo, num belo dia que minha mãe me buscou na escola e ele estava lá, no banco de trás do carro.

Com quinze já tinha minhas melhores amigas, são as mesmas até hoje, com umas 3 exceções.
Excessos e contos de mil e uma noites.
Ouvíamos muito rock e a internet surgia. Bom demais!
All Star e saia hippie, mil truques pro cabelo ficar bonito.

Com vinte já namorava, farreava ainda muito, experimentava a liberdade.
Morar sozinha, metrópole, praia, ônibus 24 horas, que maravilha!
Já podia viajar no ano novo, acampamentos, leituras de esquerda, engajamento.

Com vinte e cinco, envelheci.
Sofri por amor.
Descobri que o mundo é duro.
Diariamente sentia o cheiro do hospício, do presídio, da miséria.
Do esgoto da favela.
Da lindeza da loucura.
Trabalhar muito, dançar mais ainda.
Perdi um grande amigo.
Vi a praia mais linda do mundo.
A vida mudou.
Somos tão frágeis...diante do mar, diante da morte.

Com trinta rejuvenesci.
Quero viver muito, ver meu filho crescer.
Estar com ele nos marcos de cinco, dez, quinze, vinte, trinta anos, o quanto der.
Cuido do que como, do que bebo, do que falo.
Do que penso, ainda não consigo.
Procuro falar a metade, ouvir o dobro.
Involuntariamente, me preocupo o triplo.
Com a cidade, com o futuro, com o dinheiro, com a violência.
Com a assistência à saúde.
Com o que nos encarcera na ignorância de nosso corpo, de nossa potência.
Temo a morte dos que amo.
Valorizo e amo minha mãe a cada dia mais.
Me tornei mãe.
Realizo um sonho.
Amo.
Cada dia mais.

Vem 2014, sopro de vida para todos nós!

21/11/2013

O Caminho até aqui - Parte II

Sendo assim, em Janeiro de 2013 parei de tomar anticoncepcional.
Como falei no texto Reflexões feministas - parte II, pela primeira vez me dei conta do mal que estava proporcionando ao meu corpo há tantos anos, sem qualquer reflexão, de forma automática, naturalizada e sem pensar nos efeitos. Eu e meu companheiro conversamos muito, ele também foi tocado com a oficina que participamos juntos em novembro passado e vinha notando as varizes em minhas pernas se reproduzindo ano após ano.
Decidimos que não era justo apenas um de nós sofrer todo o efeito deletério do medicamento, já que ambos não desejavam filhos naquele momento e, visando uma limpeza mesmo do organismo de tantas substâncias químicas, interrompi o uso e começamos a usar outros métodos para evitar a gravidez.
Passei a me observar: meu ciclo, meus hormônios, meu corpo, meu sangue. Tudo mudou. E para muito melhor. Para não dourar a pílula (com o perdão do trocadilho) a única coisa que piorou foi a acne. Tive acne na adolescência e após começar o uso do anticoncepcional ela reduziu para uma única espinha no período pré-menstrual. A bichinha voltou com tudo (pensava eu, logo vocês saberão mais sobre o assunto!). Mas comecei o tratamento dermatológico, com sabonetes e uma pomadinha, nada barra pesada para não voltar ao consumo frenético de medicamentos, o que controlou quase totalmente e fui sendo muito feliz fazendo as pazes com meus hormônios, me redescobrindo.
Fui a uma ginecologista obstetra conhecida por seus partos humanizados, fiz acompanhamento pré-concepcional. Tive grande melhora das terríveis enxaquecas que me acompanhavam por anos, fiz alguns exames de sangue, comecei a cuidar melhor da minha alimentação, comecei a fazer exercícios e o ano de 2013 foi passando com grande alegria e serenidade.
Em agosto, tiramos férias, visitamos amigos que não víamos há anos, vimos como é uma casa com um bebê, a importância da parceria do casal, porque a rotina é punk! Aprendemos um pouco sobre consumo (desenfreado e consciente), sobre o que é necessário ou não numa casa com um bebê, onde vale a pena economizar, onde não vale. Nos divertimos muito, nos curtimos, realizamos sonhos.
Na volta da viagem, a decisão: vamos começar a tentar! A princípio seria em outubro o início das tentativas, mas voltamos tão empolgados que resolvemos antecipar. Mas sem falar para ninguém, sem nos cobrar, sem neura de período fértil, sem medicalizar e medir, sem pressão. Vamos simplesmente parar de evitar e ver, quem sabe é rápido, quem sabe demora...o tempo dirá.
No primeiro mês de tentativas, setembro, claro que achei que tinha engravidado. Tanto tempo evitando paranoicamente que demora a virar a chave! Fiquei mal quando vi que não tinha rolado, confesso! Conversamos bastante e obviamente eu sabia que era uma tremenda de uma neura boba, me reposicionei e bola pra frente.
Em outubro, pensei muito pouco no assunto. Decidi fazer a seleção pro Doutorado, estudei muito, me cansei demais, horas a fio diariamente sentada escrevendo projeto, resumindo textos pra prova, estudando espanhol para a prova de línguas. Aniversário do marido, aniversário de casamento, tudo comemorado meio correndo, sem muito planejamento, pois a energia estava voltada pra seleção que eu tanto queria passar.
O resultado do doutorado sairia dia 25/10, mas antecipou e saiu dia 24: não passei. Fiquei bem triste, mais pelo esforço "perdido" (pois sei que nenhum esforço ou estudo nunca é realmente perdido) do que por não ter passado. A menstruação estava atrasada 2 dias, mas até então ela já tinha atrasado até 4 dias anteriormente, poderia não ser nada.
E foi dia 25/10 mesmo que saiu o resultado que eu tanto queria. A seleção tão importante, a da vida! Positivo! Foi muita felicidade!
Voltou com tudo a vontade de escrever, registrar, gritar por aí a alegria! E assim começamos nossa jornada...de passar a ser dois em um corpo só. De um casal passar a ser três. Quem quiser acompanhar...é bem-vindo!

20/11/2013

O caminho até aqui - parte I

O primeiro passo efetivo rumo à minha maternidade se deu em novembro do ano passado.
Então que, como disse no segundo post, mudei de tema no mestrado e estou nesta de escrever sobre parto, eu que já lia muito sobre o assunto, mais por curiosidade e desejo de me preparar para o que viria, num futuro até então incerto.
Com esta linda desculpa, me inscrevi no 21o. Encontro Nacional de Gestação e Parto Natural Conscientes, esse evento de nome pomposo que recebi a divulgação em meu email. Fui lá ver qual era, aprender, ouvir, conhecer pessoas.
O encontro era numa sexta, sábado e domingo aqui no Rio de Janeiro, num auditório simplesmente lindo, janelões abertos, luz natural entrando, um clima bem diferente dos novembros cariocas, onde os aparelhos de ar condicionados gelam todos os lugares possíveis.
Resumindo: o Encontro foi tão intenso sexta e sábado, que não tive corpo para voltar domingo. Cada palestrante demonstrava tamanho respeito pelo tema, uma aposta tão profunda e verdadeira, uma militância na vida, que nunca havia presenciado em nenhum evento do tipo. Doulas, pediatras, enfermeiras, parteiras, acadêmicos...independente da via de ligação com a temática, todos estavam de tal forma imbuídos na preocupação de divulgar, informar e reproduzir um pensamento de respeito ao nascimento, ao processo de gestar, parir e cuidar, que me tocou profundamente. Revi minha relação com meus pais, meu processo de ser gestada, nascida (de cesárea eletiva) e cuidada, aprendi e refleti muito.
O público era muito variado, desde doulas que viajaram centenas de quilômetros, até casais, mães e pais, profissionais, crianças. Isto favoreceu o tema das palestras, sem aquele ar professoral tão presente em eventos, mas uma calorosa conversa, onde todos estavam em sintonia.
A partir deste evento, me senti realmente no caminho para poder também gerar. Me senti extremamente privilegiada por poder aprender tudo isso antes de estar grávida ou ser mãe, por ter tempo para processar essas informações e sentimentos sem estar atravessada pelo turbilhão de hormônios e medos que vêm junto com o filho.
Uma semana depois deste encontro, uma das palestrantes, inglesa, a Julie Garland, fez um workshop voltado para casais que pretendem ter filhos, baseado num programa que ela oferece na Inglaterra para este público. Basicamente ela fala sobre preparação física, emocional e até espiritual para o processo de gestar. Muitíssimo interessante. Fomos eu e meu companheiro, um pouco desconfiado, mas topando experimentar. Foram quase 10 horas de grupo de conversas, experiências e aprendizados e, para falar o mínimo, foi transformador. Fundamental!
Assim, em novembro de 2012, essa revolução teve início.
Do particular, privado, para o coletivo. O que esse aprendizado teve de importância para meu próprio crescimento pessoal, acabou se tornando tão grande que não coube e transbordou, teve que sair, pra atingir também outras pessoas.
Mudei de tema, conheci pessoas, me inscrevi em dois cursos de formação de doulas (com abordagens diferentes e igualmente maravilhosas).
Participei de um parto como doula voluntária numa maternidade pública aqui no Rio. Vi muita violência obstétrica, tanta que me impediu de voltar.
Agora acompanho 3 gestantes e seus bebês, ansiando apoiá-las num parto respeitoso.
Mas o principal foi a urgência em dar continuidade na preparação física e mental para gestar, mesmo sabendo que provavelmente ainda demoraria um ano inteiro para isso...